Professora Ana Aragão fala sobre Saúde Mental

Categoria: Entrevistas

Nesta edição, especialmente voltada para a saúde mental, o Kara do Koelle entrevistou a professora Ana Aragão. Psicóloga formada há 39 anos pela PUC-Campinas, mestre e doutora em educação pela Unicamp, Ana lecionou na PUC-Campinas durante 14 anos e, desde o ano 2000, é professora da Faculdade de Educação da Unicamp.

Quanto você acha que a pandemia está afetando o desenvolvimento psicossocial dos jovens? Quais são os principais impactos que você acredita que aconteceram? 

Profª. Ana: Eu acho que está afetando completamente. Os alunos, por exemplo, que mudaram de escola no Ensino Médio no começo do ano passado não tiveram a oportunidade de conhecer ninguém, de se relacionar presencialmente com ninguém. A pandemia, especialmente com o isolamento social, acabou afetando as relações interpessoais, que é o que existe de mais importante na escola. A gente aprende a conviver, aprende a se relacionar, aprende a perder, aprende a ganhar. Então acho que a pandemia trouxe problemas graves. Além disso, para a população de baixa renda, a pandemia trouxe um problema gravíssimo que é não permitir que as pessoas tenham acesso ao ensino da mesma maneira que a gente. 

Ana, nós queríamos saber o que você acha que o stress causou nas relações familiares, ou em qualquer outro tipo de relação.

Profª. Ana: Uma coisa que eu acho importante colocar em discussão é o que significa, na verdade, a saúde mental. A saúde mental é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não é somente a ausência de doenças. Aí a gente olha e diz: nós podemos dizer que nós temos saúde mental? O completo bem-estar físico, psicológico e social? Acho que ninguém. Então, uma das dimensões que o stress causou no ambiente da pandemia foi potencializar as dificuldades. As famílias que viviam bem, que tinham uma relação bacana, dialogada, de conversa, que tinham uma vida social ajustada, no sentido de que todos têm possibilidade de conversar sobre o que está acontecendo, tiveram mais chance de se manter desse jeito. As famílias, entretanto, que não a tinham, tiveram muito mais problemas. Um dado importante é que em abril do ano passado houve um aumento de 9 mil por cento na busca no Google pela palavra divórcio. Essa busca pela palavra revela uma relação comprometida, em crise, que já é naturalmente difícil e fica ainda mais agora, com as dificuldades potencializadas. Quando vocês perguntam sobre as relações de um modo geral, na escola isso também aconteceu. Eu, por exemplo, que sou professora, ano passado, com a entrada do ensino remoto, tomei um susto, porque eu nunca tinha dado aula pelo computador. Em uma situação como essa, principalmente na pandemia, em que a gente deixou de ter possibilidade de fazer planejamento sobre a nossa vida, algo que nós dizíamos: semana que vem eu faço, ano que vem eu vou viajar para tal lugar, a gente deixou de ter esse tipo de controle também. Então é um stress, na verdade, que pegou de surpresa todo mundo. Outra informação é que a taxa de suicídio cresceu muito entre alunos, principalmente de Ensino Médio, segundo a UNICEF, em outubro do ano passado; 25% dos estudantes do mundo desenvolveram depressão. Depressão não é uma bobagem, a gente precisa cuidar muito bem disso. A pessoa que tem características depressivas precisa de uma ajuda orgânica de um médico que dê para ela alguns componentes orgânicos que estão faltando, mas ela também precisa de ajuda psicológica, para saber o que ela faz com tudo isso. Eu, então, tive muito pouca capacidade de concentração, algo que nunca tinha acontecido antes, aí eu olho e falo: o que é isso que tá acontecendo? Serei eu o ET? Terei eu ficado menos inteligente nesse período? Por que será que eu não consigo me concentrar? Eu acho que é um pouco do que todo mundo tem sentido. 

Você acha também que o distanciamento social nesse período afetou muitas amizades?

Profª. Ana: Sem dúvida, eu sou uma pessoa muito social, adoro receber pessoas na minha casa e nada disso pode mais acontecer. É claro que a gente acaba mantendo contato com algumas pessoas, mas aquela relação que a gente estabelece com todo mundo acabou não acontecendo mais, e isso nos afeta, principalmente quando a gente gosta desse tipo de coisa. Eu adorava a aula presencial não só por causa das aulas, mas porque eu saía da sala e podia tomar um café na cantina e encontrar alunos, professores e funcionários. 

Você acredita que futuramente as pessoas terão sequelas emocionais devido à pandemia? Quais serão essas sequelas? 

Profª. Ana: Eu acho que sim, precisamos aprender a lidar com a falta das pessoas. Uma coisa por exemplo que a gente fala bastante é: todo mundo vai voltar e ser uma pessoa melhor, depois da pandemia todos seremos pessoas melhores. Eu não acredito nisso porque eu sou hoje uma pessoa muito mais triste do que eu era no ano passado. Entretanto, estou aprendendo a ter menos gente por perto, a dar valor ao que chamamos na psicologia de pequenos nadas. “Pequenos nadas” são quando você recebe um WhatsApp de alguém que você não estava esperando e ele pergunta: – E você, tá tudo bem? Ou: – Olha aqui a fotografia da minha cachorra, olha, agora eu tenho uma cachorra! Olha os meus netos, olha os meu filhos! São pequenos nadas que na verdade nos ajudam a enfrentar as dificuldades da vida. Isso é fundamental. A gente diz na psicologia que é preciso fazer reabastecimento emocional, então vamos pensar aqui num exemplo: existe uma nave espacial e eu sou um astronauta dentro da nave. Parei num determinado planeta e vou descer para conhecer esse planeta. O tempo que eu posso ficar fora da nave depende do cilindro de oxigênio que eu tenho atrás, do tamanho dele, do tanto que ele dura, ou de uma mangueira que é ligada à nave espacial, posso fazer algumas incursões por esse planeta desconhecido. De qualquer forma, quando o oxigênio estiver acabando, eu preciso voltar para a nave espacial para me reabastecer. Ou reabastecer o cilindro ou aumentar o tamanho da mangueira… Com a gente, do ponto de vista emocional, é mais ou menos isso. Pequenos nadas são reabastecimentos emocionais que a gente faz. Sabe aquela situação em que você liga pra alguém que você não vê há muito tempo e diz: – Oi, tá tudo bem? E ela diz: – Tá, e você? E o que é que você queria?, ela pergunta. Não, eu não queria nada, só liguei por nada. Quando a gente liga pra mãe, pro pai, que estão viajando, que moram fora, o avô, a avó, a gente faz reabastecimento emocional. É como se tivéssemos um tanquinho de afeto dentro de nós e que precisássemos o tempo inteiro estar considerando. Então, eu preciso do bom dia para poder ter um dia bom, esses são os pequenos nadas, são os reabastecimentos emocionais. E aí acho que, por vocês estarem no colégio, há uma dimensão muito importante para a gente falar. Temos que aprender, mesmo na pandemia, a atuar no coletivo, é como quando a gente olha e diz: – Parece que o fulano anda meio triste, quem é que tem mais contato com ele? Vamos tentar descobrir se coletivamente podemos ajudar, fazer alguma coisa? A gente precisa ter algumas estratégias de enfrentamento, de chegar perto, mas não pode deixar de lado, não pode mesmo. 

E você acha que o reabastecimento das emoções pode acontecer realmente durante o isolamento?

Profª. Ana: Acho. Acho que é como se a gente tivesse colocado outro tipo de combustível. Existem duas palavras nessa pandemia que eu tenho uma implicância que são: Novo Normal, não tem novo normal, não existe novo normal, a gente nunca vai viver isso de novo, e aí eu preciso dizer que eu nunca fui normal. E reinventar, nós não temos que reinventar nada, temos que nos adaptar a novas formas de viver. Eu duvido que a gente chegue, todos vacinados, e falemos: – Vamos fazer uma festa de confraternização. As pessoas vão ter coragem de se abraçar do jeito que a gente fazia? Esse reabastecimento pode ser feito por telefonemas, por WhatsApp, por colocar alguma coisa nas redes sociais para alguém. Eu vi recentemente um vídeo de um senhorzinho espanhol cuja mulher está internada numa clínica com Alzheimer, e todos os dias, desde que ela está internada, ele vai visitá-la, e na época da pandemia, ele não podia. Então, ele combinou com a clínica que ele ficaria sentado numa cadeirinha do lado de fora da janela, e todos os dias, chova ou faça sol, ele vai lá no mesmo horário conversar com ela. Isso não é um jeito de reinventar a relação, isso é um jeito de ajustar as possibilidades. A gente precisa criar novas estratégias para que não nos afastemos das pessoas, precisamos desse contato para não enlouquecermos, para não nos deprimirmos. Não achamos que a vida não tem mais graça, porque tem. A vida é bela.

Você acha que as pessoas descobriram novos hobbies durante a pandemia? Novas coisas que elas gostam de fazer, e isso as deixa mais felizes? 

Profª. Ana: Acho que sim, as pessoas foram atrás de coisas que gostam de fazer. Eu, por exemplo, aprendi a cozinhar, o meu marido foi atrás de plantar florzinhas no nosso jardim. Eu até contei em uma crônica que ele botava os vasinhos um do lado do outro, como se as plantinhas estivessem prontas para apostar uma corrida. Outro dia ele colocava todas elas num círculo, como se estivessem conversando. 

Que medidas você acha que a gente pode tomar ou como a gente pode lidar com esses sentimentos que a pandemia traz? Em benefício da nossa saúde mental.

Profª. Ana: Em relação aos sentimentos, existem algumas coisas que a gente pode cuidar. A primeira coisa, em qualquer faixa etária, é aprender a nomear os nossos sentimentos, dizer o que a gente está sentindo, parar para pensar: por que eu estou com tanta raiva? O que está acontecendo? Então acho que em primeiro lugar a gente precisa aprender a nomear aquilo que estamos sentindo, dizer pra alguém o que pode ser o foco do nosso sentimento… Eu fiquei triste por você ter falado assim comigo, ou eu fiquei tão feliz por você ter me dito isso, ou eu fiquei preocupado, fiquei com raiva. Então, é importante primeiro identificar, depois dizer sobre esse sentimento. Em terceiro lugar, a gente conversar. Vamos pensar que são sentimentos que a gente tem em relação a outra pessoa, e dizer: – Como é que a gente pode resolver isso? O que é que a gente faz com essa informação? Como é que eu posso fazer para que você não me trate desse jeito de novo? O que eu posso fazer pra que você não despeje em cima de mim a sua raiva? Porque uma coisa que a gente faz com muita facilidade é terceirizar, transferir a responsabilidade de um sentimento. É dizer: eu era uma pessoa normal, tava tudo bem comigo, aí você chegou falando aquilo, eu me desequilibrei, eu fiquei com raiva. Não, a pessoa falou, mas quem ficou com raiva, quem se desequilibrou foi você, no máximo ela disse de uma forma que você não gostou. São considerações importantes que a gente precisa ter em relação a dizer: – Você não tem culpa de eu estar desse jeito, eu fiquei assim porque você disse uma coisa que eu não gostei, mas eu é que tenho que aprender a lidar com isso. O Amyr Klink conta num dos seus livros que em uma das viagens que fez sozinho ele foi remar o bote e um dos remos caiu na água. Pegou então esse remo com o outro e os dois caíram na água. E ele comenta: infelizmente eu não podia colocar a culpa em ninguém, ninguém podia ser responsável por eu ter derrubado os remos na água, a responsabilidade era só minha. Essa é uma dimensão muito importante: qual a parte que me cabe no latifúndio das emoções?

Seguindo a pergunta anterior, existe algo direcionado aos jovens que melhore a nossa concentração diária? Visando, por exemplo, às aulas remotas que nós temos que assistir.

Profª. Ana: A primeira coisa que a gente precisa pensar nessas aulas remotas é que está difícil para todo mundo. Está difícil para os professores, está difícil para o coordenador, está difícil para o diretor da escola e está difícil para vocês alunos. Aprender a não achar que quando alguém fala de sentimento trata-se de uma bobagem, sobre sentimento é importantíssimo que a gente fale. Precisamos passar a nossa vida inteira aprendendo a dizer: isso aqui que eu tô sentindo é raiva, isso que eu tô sentindo é uma coisa que eu não sei o nome, isso que eu tô sentindo é melhor ficar longe das outras pessoas porque talvez eu as magoe. Mas eu acho que o mais importante é a gente aprender a dizer para as pessoas o que a gente está pensando sobre o que está acontecendo: eu me senti mal porque um aluno tirou sarro da minha cara por causa de tal coisa, vamos conversar para ver se a gente pode chegar a um acordo. Um dos problemas mais sérios que existe de relacionamento interpessoal é o bullying. No bullying, na verdade, nós precisamos lidar com 3 elementos: o autor do bullying, o alvo do bullying e o público. A gente precisa aprender a mostrar indignação, mostrar o que está acontecendo na nossa vida, mostrar por que ficamos bravos. Agora, nas aulas remotas, tem uma coisa que eu sempre digo para os meus alunos da universidade: nós temos que ver o que é que nos motiva para as aulas remotas: é o professor passar um filme, é o professor fazer uma atividade em grupo, é o professor dar uma aula expositiva… mas, de qualquer forma, o que eu tenho que pensar é: está todo mundo na mesma situação, então não é simplesmente eu dizer: dane-se, porque a aula é remota. A gente precisa também aprender a olhar do ponto de vista do outro, essa é uma perspectiva importante. 

Você acha que as pessoas passaram a ser mais empáticas umas com as outras, pensar mais no próximo? 

Profª. Ana: Não, eu acho que é o que eu falei sobre as relações familiares: as pessoas que tinham empatia ficaram mais empáticas, as pessoas que eram egoístas ficaram mais egoístas, mas a escola é o lugar onde a gente pode aprender a ser empático, aprender a ser cooperativo, aprender a ser colaborador. Isso não é uma coisa inata, ninguém nasce criativo, inteligente, bacana, colaborador, cooperativo, a gente aprende a ser generoso, a olhar e falar: – O que é que está acontecendo com você que eu posso ajudar? O que você está sofrendo? Se não for na escola, onde é que a gente aprende a lidar com as diferenças? Na escola, a gente aprende que as diferenças são importantes, que aquela pessoa que você achava que não ia conseguir te ajudar nunca na vida te deu uma dica especialíssima sobre a matéria, que a partir dali você foi em frente. Onde, senão na escola, a gente aprende a ser legal, a não ser chato, a alguém olhar pra você e dizer: Ana, você está muito chata, ninguém tá te aguentando, aí eu vou chegar em casa e falar: Ah! Nossa! Ela disse que eu estou muito chata, eu preciso mudar.

“Não deixem de estar perto das pessoas. Reabastecimento emocional é algo com o que você tem que se preocupar a vida inteira, não só agora na pandemia. É igual você ligar pra uma amiga e falar: – Oi, tudo bem? – Tudo, e você? Ai que mentira! Eu sei que você não tá bem, tem alguém bem? Tem alguém bem nesse período? Claro que não. Mas isso não é algo para a gente falar: ninguém está bem. Então, se ninguém está bem, vamos cuidar das pessoas.”

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