De aluno do Colégio Koelle a cineasta: Iberê Santos relembra sua trajetória e os bastidores do documentário "Gurgel e o Sonho da Cidade Azul"

De aluno do Colégio Koelle a cineasta: Iberê Santos relembra sua trajetória e os bastidores do documentário “Gurgel e o Sonho da Cidade Azul”

Categoria: Cultura Entrevistas

Ex-aluno da instituição, o cineasta retorna ao Koelle no segundo semestre de 2026 como orientador do novo Clube de Cinema

Rio Claro ganhou, em 2026, um retrato cinematográfico de um dos capítulos mais marcantes de sua história industrial. O documentário de longa-metragem “Gurgel e o Sonho da Cidade Azul”, com 113 minutos de duração, apresenta a trajetória da fábrica de automóveis Gurgel e sua conexão com a cidade. A produção reúne depoimentos de ex-funcionários, pesquisadores, colecionadores e figuras públicas para reconstituir o projeto idealizado pelo fundador João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, que buscava desenvolver um carro genuinamente nacional.

Dirigido pelo cineasta Iberê Santos, o filme narra essa reconstrução a partir de arquivos inéditos e entrevistas coletadas ao longo de 2024. Santos passou a infância e a adolescência em Rio Claro antes de se mudar para São Paulo, em 1999, para cursar Cinema na FAAP. A ideia de produzir um documentário sobre a Gurgel surgiu ainda no período acadêmico, mas só foi retomada durante o isolamento da pandemia, quando o diretor decidiu retornar à cidade com a família para aprofundar a pesquisa e localizar personagens que acompanharam diretamente o funcionamento da fábrica.

O projeto foi viabilizado por meio de diferentes mecanismos de incentivo, com recursos obtidos pela Lei Paulo Gustavo, pela Lei de Incentivo à Cultura de Rio Claro e pela Lei Rouanet, além de patrocínio direto de empresas da região — entre elas, o Colégio Koelle. Filmado ao longo de 2024, o documentário contou ainda com apoio logístico do portal Grupo Rio Claro-SP durante as gravações na cidade, e reúne entrevistas de ex-prefeitos, ex-funcionários, engenheiros, pesquisadores e representantes da família Gurgel, além de registros de arquivo envolvendo figuras públicas como Itamar Franco e Henrique Hargreaves.

Após sua finalização, o filme terá sessões de lançamento em Rio Claro e em São Paulo e, em seguida, iniciará circulação em festivais de cinema nacionais e internacionais — etapa considerada fundamental para negociar distribuição comercial e alcançar um público mais amplo.

Iberê Santos é ex-aluno do Colégio Koelle, onde estudou entre a 8ª série e o 1º ano do Ensino Médio. No segundo semestre de 2026, ele retorna à escola, desta vez como orientador do novo Clube de Cinema, voltado aos alunos dos 8ºs e 9ºs anos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Nesta entrevista, ele relembra sua passagem pela instituição, conta como construiu sua carreira e compartilha conselhos para quem sonha em seguir o caminho da produção audiovisual.

KK: Olhando para trás, como foi a sua época aqui na nossa escola? Tem alguma memória, professor ou projeto que te ajudou a despertar interesse pelo cinema?

Iberê: Na época em que estudei no Colégio Koelle, entre a 8ª série e o 1º colegial, foi exatamente quando despertei meu interesse pelo cinema. O ano de 1995 foi épico. O Oscar daquela época premiou filmes como Forrest Gump, Um Sonho de Liberdade e Pulp Fiction. Logo no mesmo ano foram lançados Cassino e Seven. Eu ia muito ao cinema com meus amigos da escola. Antes da construção do Shopping Rio Claro, o cinema que eu frequentava era o Cine Excelsior, no centro. Até hoje me arrependo de ter assistido O Máscara duas vezes e não ter entrado na sala ao lado para uma sessão de Pulp Fiction. Além disso, na escola eu filmava as gincanas e fazia muitos trabalhos em vídeo. Isso me ajudou muito a entender a dinâmica da profissão que eu iria escolher.

KK: Muitos alunos têm dúvidas sobre qual carreira seguir. Como foi para você o processo de escolher esse curso? Foi uma decisão fácil?

Iberê: Na minha época não se falava em faculdade de cinema. Era um curso que existia, mas que poucos conheciam. Por isso, tive um pouco de dificuldade para entender como seria a faculdade e a profissão que eu estava escolhendo. Naquele período, o Brasil vivia uma crise muito grande e o cinema nacional estava recomeçando praticamente do zero. Mas, de qualquer forma, eu sempre gostei de filmar e sempre tive uma câmera em casa. Ganhei a minha primeira aos 14 anos, do meu pai — era uma câmera VHS —, e acho que foi a partir dali que comecei a me interessar pela produção de filmes. Eu alugava muitas fitas e estava sempre atualizado sobre os lançamentos, embora entendesse pouco sobre os bastidores. Meu pai buscava na internet tudo o que podia sobre cinema no Brasil e no exterior para me ajudar.

Com a ajuda dele, escolhi a FAAP, que na época tinha um dos melhores cursos de cinema. Mas foi difícil, porque o vestibular era muito diferente dos outros. A redação e as questões de conhecimentos gerais valiam muito, então peguei as provas dos anos anteriores para entender o formato. Com a base forte que o Koelle me deu e o apoio do meu pai no estudo dos assuntos gerais, consegui ingressar no ensino superior.

KK: Como foi a sua experiência durante a faculdade?

Iberê: A faculdade de cinema é muito diferente dos outros cursos e as matérias eram totalmente novas. A base do curso é a de Comunicação Social, mas a formação final é em cinema. A matéria que me fez passar no vestibular e que mais me ajudou durante todo o curso foi Redação, porque tive que escrever muitas histórias e roteiros. Por isso, devo muito ao professor Jaime Leitão.

KK: Quais foram os passos mais importantes — ou os maiores desafios — na sua carreira até você chegar ao ponto de produzir seu próprio documentário?

Iberê: Assim que me formei, fui trabalhar em uma produtora de filmes publicitários. Comecei operando câmeras e depois migrei para a área de direção, que sempre foi meu grande objetivo. Primeiro trabalhei como 2º Assistente de Direção, fazendo muitos testes de elenco, e mais tarde como 1º Assistente de Direção, onde ganhei muita experiência na organização geral de sets de filmagem e na produção. A estrutura de um filme publicitário é bem semelhante à de um filme de cinema; a única diferença está no tempo e no conteúdo gerado, mas a equipe técnica e a organização são as mesmas. Trabalhei por quase 20 anos como assistente de direção em publicidade e só depois comecei a dirigir minhas próprias campanhas. No entanto, foi na pausa forçada da pandemia que decidi rever os projetos que tinha na minha pasta de ideias — ideias essas que eu vinha guardando desde a época da faculdade. Foi nesse momento que senti que estava na hora de produzir o meu primeiro filme.

KK: De onde veio a sua inspiração inicial para o documentário? O que te fez pensar “eu preciso filmar isso”?

Iberê: Na pandemia, como tivemos que permanecer em casa, resgatei um projeto que escrevi em 2001. Naquele ano, eu estava em São Paulo fazendo faculdade quando começaram a surgir as primeiras notícias sobre os leilões da fábrica da Gurgel em Rio Claro. Aquilo me despertou um interesse imediato, pois eu via aqueles carros da Gurgel nas ruas da cidade quando era criança e, na minha imaginação de infância, eles pareciam grandes brinquedos. Eu queria filmar essa história já naquela época, mas era muito jovem e inexperiente.

No início, a minha ideia era fazer uma ficção chamada “Quem Matou Gurgel e o Sonho da Cidade Maravilhosa do Futuro”. Para o título, queria me inspirar no clássico de Stanley Kubrick, Dr. Fantástico (cujo título original em inglês tem bem a pegada que eu gostava: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb). Os anos foram passando e aquela ideia se transformou em um filme documental, porque sou apaixonado por documentários. Uma das minhas maiores inspirações foi Roger e Eu, de Michael Moore, que também é uma história sobre uma cidade e uma fábrica de carros (a GM). Outro filme que me inspirou foi Quem Matou o Carro Elétrico?, um documentário sobre um carro elétrico criado pela GM que deu muito certo, mas que eles mesmos destruíram por medo de que aquilo acabasse com a indústria automobilística da época. Achei que tinha tudo a ver com a história da Gurgel.

KK: Quais foram os maiores desafios técnicos e humanos que você enfrentou durante as gravações?

Iberê: Acho que o maior desafio humano foi voltar a morar em Rio Claro. Como eu vivia em São Paulo há mais de 23 anos, eu sabia que, se estivesse longe, não conseguiria fazer esse filme. Então, eu e minha esposa decidimos retornar para Rio Claro. Morando aqui e estando perto da história, eu poderia me conectar melhor com as pessoas e sentir os lugares onde tudo aconteceu. Eu tenho um filho que hoje está com 4 anos, e essa decisão foi difícil na época, mas acredito que foi a mais acertada. Inclusive, meu filho acabou virando personagem da história.

Outro grande desafio foi buscar patrocínios nas empresas. A gente nunca sabe bem quem procurar, e a burocracia das leis de incentivo quase não ajuda quem está começando. Felizmente, com o apoio local do Grupo Rio Claro (portal de notícias online da cidade), conseguimos ganhar um edital da Prefeitura através da Lei Paulo Gustavo. Também consegui patrocínios por meio da Lei Rouanet e da Lei de Incentivo à Cultura do Município. O Colégio Koelle foi um dos principais patrocinadores, junto com a Chemson, Owens Corning, Ferramentas Wenzel, Geromel, Casa & Vida e Grupo Ápia. No total, captei um terço do dinheiro que precisava para produzir o filme.

A partir daí, começou o desafio físico. Eu não podia voltar atrás, era dali para frente. Reuni uma equipe principal pequena: eu na direção e produção, um diretor de fotografia, um técnico de som direto, uma assistente de direção e duas pesquisadoras. Pontualmente eu chamava mais alguns profissionais, mas as filmagens aconteciam basicamente com uma equipe de três pessoas no set. Eu acumulava muitas funções: dirigia o filme, o carro e ainda operava uma das câmeras.

Nesse sufoco, conseguimos filmar todas as entrevistas em um período de um mês, entre outubro e novembro de 2024. Também captei imagens de eventos e encontros de ex-funcionários desde o início de 2024; foi praticamente um ano inteiro filmando. A ideia principal era captar a maior quantidade possível de depoimentos de pessoas que fizeram parte da história da Gurgel.

Logo depois veio o desafio mental: como juntar essa colcha de retalhos? Demorei seis meses para editar apenas a primeira parte do filme. Então parei e mostrei para as pessoas mais próximas: meu pai, minha esposa e alguns profissionais do cinema de quem sou amigo. Cada um opinou um pouco. Como eram muitas imagens de arquivo, fotos e reportagens de jornal, acabei ficando um tempo sem saber como continuar, e me deu um “branco” de pelo menos um mês. Mas consegui retomar a edição e terminei a primeira versão em novembro de 2025.

Teve um dia marcante em que assisti à montagem que fiz e fiquei surpreso, pois achei que tinha ficado bom. Pelo menos para mim, estava muito bom naquele momento. Daí resolvi testar a montagem com o público. Fiz algumas exibições fechadas para um total de aproximadamente 600 pessoas, e a resposta foi surpreendente. Eu realmente não esperava que o filme fosse causar tanta emoção, e fiquei muito feliz com o resultado. As pessoas se emocionaram muito com a história do João Gurgel e com a história de Rio Claro.

KK: Agora que o projeto está pronto, qual foi o maior aprendizado que você leva dessa produção, tanto como cineasta quanto como pessoa?

Iberê: O filme ficou pronto, mas agora o desafio é comercializar o projeto. Estou em conversas com canais de streaming para disponibilizá-lo para todo o Brasil. É um caminho longo, mas espero ter sucesso em breve. Aprendi muito no processo e sinto que cresci como ser humano ao mergulhar de cabeça nessa história. A vida do João Gurgel é extremamente inspiradora.

KK: No segundo semestre de 2026, você retornará ao Colégio Koelle como orientador do Clube de Cinema. Que conselho você daria a um aluno da nossa escola que sonha em trabalhar com cinema ou artes, mas talvez tenha medo de arriscar?

Iberê: Eu digo que não existe nada certo nesta vida, você nunca vai ter 100% de certeza ou satisfação em uma profissão. Mas é sempre melhor trabalhar com o que te inspira. Meu pai é advogado e um historiador nato; ele me inspirou a contar histórias porque me contava várias delas na infância. Eu virei artista, pois cinema é arte, mas toda profissão tem seus caminhos difíceis e obstáculos. Até as profissões mais exatas têm as suas abstrações. Arriscado mesmo é ter muitas certezas sobre a vida. Prefiro viver em dúvida, mas sem medo de errar. Às vezes, há cineastas que fazem apenas um filme de sucesso, escritores que deixam apenas um livro marcante ou músicos com uma única música inesquecível. O meu objetivo de vida é ser lembrado por pelo menos uma criação artística. O ser humano é, por essência, um ser criador. Espero que a história da Gurgel inspire outras pessoas a serem mais criativas.

A trajetória de Iberê Santos ilustra bem o que o Colégio Koelle busca cultivar em seus alunos: a coragem de seguir um caminho pouco convencional com base sólida, disciplina e propósito. Agora, à frente do Clube de Cinema, o ex-aluno retorna à instituição para compartilhar essa experiência diretamente com os alunos dos 8ºs e 9ºs anos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, em mais uma iniciativa que amplia o repertório artístico e cultural da comunidade escolar.

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